"Memórias de Natal" ★★★★★

Vanessa chegou mais cedo a casa, dirigindo-se imediatamente à cozinha, onde se encontrava a mãe a preparar o almoço.
— Mamã, posso falar contigo?
— Agora não! Estou atrasadíssima e os teus irmãos chegam daqui a pouco. Estive toda a manhã a decorar a sala; como sabes, o Natal é bonito, mas dá muito trabalho.
— Eles ainda demoram. Eu vim mais cedo para casa.
Não tive aula de alemão, o meu professor ficou em casa doente.
— Mesmo assim, estou atrasada e não tenho tempo para te ouvir. Não pode ficar para depois do almoço?
— Mamã, preciso de falar contigo já. É um assunto muito importante.
— Porque é que os meus filhos têm sempre coisas importantíssimas para me dizer à hora do almoço? Já é uma praga!
— Mamã, por favor!
— Está bem, Vani, então diz lá.
— Hoje na aula de moral o nosso professor pediu para não esquecermos o significado do Natal. O Natal é a festa do nascimento de Jesus, que veio ao mundo para nos salvar. Temos que manter com as nossas obras e acções a mensagem de amor que Ele nos trouxe.
— Vani, queres dizer, que este ano não queres presentes?
— Não é isso, mamã! Tu trocas sempre tudo. Podemos manter o Espírito Cristão do Natal mesmo com presentes.
— Então, o que me queres dizer com toda essa conversa?
— O meu professor sugeriu, que seria um gesto bonito convidar um sem-abrigo para festejar a Noite de Consoada com a família.
— É um gesto bonito e muito cristão, não haja dúvida.
— Queres dizer, que concordas em convidar um sem-abrigo para consoar connosco?
— Connosco? Por amor de Deus! Não foi isso o que eu disse, Vani. Eu só disse, que era um gesto bonito e cristão.
— Mamã, tu achas a ideia boa, mas não a queres praticar, é isso?
A mãe horrorizou-se só de pensar numa Noite de Consoada com um sem-abrigo - numa sala que tanto trabalho lhe dera a decorar. Resignada respondeu:
— Está bem, Vani, vou pensar nisso, mas agora deixa-me fazer o almoço.

Vanessa cantava no coro da igreja. Todos os domingos lá estava toda a família no banco da frente a assistir à missa e para a ouvir cantar.
No 3º Domingo de Advento o padre Gregor dirigiu-se aos fiéis após o sermão, dizendo a mesma coisa que a Vanessa tinha dito dias antes. Também ele falou solemente sobre o significado do Natal, terminando com as palavras, de que seria um acto cristão e do agrado do Senhor, se cada família convidasse na Noite de Consoada um sem-abrigo ou um estrangeiro.
— Alto lá! Então, os estrangeiros são considerados uns sem-abrigo, disse a mãe entre dentes.
A caminho de casa foi a mãe a primeira a falar:
— Vani, e se convidássemos um estrangeiro em vez de um sem-abrigo?
A filha olhou para ela surpreendida
— Se preferes, podes convidar um estrangeiro.
A mãe suspirou aliviada.

Por volta das 4 da tarde do dia 24 de Dezembro toda a família se reúniu na igreja da paróquia, sentando-se no primeiro banco para assistir à missa de Natal para as crianças . A Vanessa cantou no coro e a Vivien foi um dos pastorinhos na cena do presépio. No final da missa houve as habituais trocas de Boas Festas no adro da igreja. Um ambiente quente e acolhedor esperava a família em casa, sendo o enorme presépio e a àrvore de Natal decorada a primor o encanto de todos.
Da cozinha não chegou a fumegar o bacalhau com todos, a ceia da consoada da mãe noutros tempos; da cozinha chegou sim, um cheirinho a ganso assado recheado com castanhas.
Entretanto a Vanessa começou a ficar impaciente.
- Quando chega o nosso convidado, mamã? perguntou ansiosa.
Maliciosa a mãe sorriu.
— Já chegou, minha querida. SOU EU!
Perplexa a Vanessa olhou para a mãe.
Embaraçada e extremamente aborrecida por ter enganado a filha, tenta explicar o que tinha feito:
— Querida, eu já estava disposta a convidar um sem abrigo para passar a Noite de Consoada com a nossa família, quando na missa o padre Gregor deu aos fiéis a opção de convidarem um sem abrigo ou um estrangeiro; optei por um estrangeiro e tu concordaste.
— Concordei, sim. Mas tu afinal não convidaste nenhum estrangeiro.
— Convidei, sim. Convidei-me a mim própria.
— Mamã, mas tu não és estrangeira.
— Tu sabes muito bem que nasci em Portugal.
— Em Lamigu! Em Lamigu, gritou triunfante o Jochen.
— Em Lamego, Jochen! Já que te metes na conversa pronúncia ao menos correctamente o nome da minha terra.
— Para nós não és estrangeira, - disse a Vanessa docemente.
— Aqui na Alemanha sou eu a estrangeira. Em Portugal sóis vós os estrangeiros.
— A vossa mãe — interferiu o pai irritado — é mais alemã do que o próprio Papa.
— Tenho uma gota de sangue francês; uma gota de sangue espanhol, mas não tenho uma única gotinha de sangue alemão. Capito!
— A mamã envergonha-se de ter uma bisavó espanhola.
— Cala-te, Jochen, não gosto que digas disparates.
— Tu não gostas dos espanhóis? insistiu o Jochen.
— Isso já é uma outra história.
Passada a algazarra o pai virou-se para as crianças num tom conciliador:
— Agora vamos cantar e ver o que é que o Menino Jesus nos trouxe, enquanto estavámos na missa.
Durante o jantar a mãe observou-os a todos disfarçadamente. A Vanessa não erguia os olhos do prato. A mãe sentiu uma pena enorme da filha.
A meio da noite, como visse luz no corredor, a mãe levantou-se e fui bater ao de leve à porta do quarto da Vanessa. Estava sentada na cama e lia um livro.
— Ó minha querida, como sou má — disse a mãe entre soluços, abraçando-se à filha desesperadamente.
— Mamã, tu não és má. Tu és diferente!