Duque

A morte gosta de brincar com a presa antes de acabar com ela, como o sádico gato que ela é. Pega-nos pela cauda, estrebuchamos de cabeça 
para baixo, convulsivamente. Larga-nos por um segundo em que julgamos poder escapar, para nos encurralar num canto da vida em que, conformados, desistimos.
A chuva avisou-me de que algo estava errado. 
Não era uma precipitação agressiva, de pureza invernal, antes melancólica, desalentada como se, noticiada a sua morte, tivesse também ela perdido 
a esperança e as forças. 
No bar não chovia. Decorria a primeira festa do ano lectivo, cheirava a euforia e a deboche. Apoiado na muleta, o Duque observava os colegas junto ao balcão. Dirigi-me a ele.
— Faço-te companhia. Não gosto de dançar. 
Estou só a descansar.
Bebemos?
— Bebemos. Pago eu. Dois shots de tequila.
Odeio tequila.
Eu odeio pagar. 
Escorregou bem, afinal. 
Como te chamas mesmo? Só te conheço por Duque.
Agostinho
Não sabias ter um nome mais feio? O que é isso, um Agosto mais curto?
Riu-se. Lembro-me de comentar com um amigo, no dia seguinte, que fiquei admirado com a sua disposição, fulgor físico e resistência ao álcool, depois de todas as bebidas que se seguiram. Admirado. Como se o normal fosse ceder, prostrar-se sem dignidade, como se todo o ser humano devesse admitir que é naturalmente frágil e desistir perante esta condição.
Agarrou a outra muleta, que descansava encostada ao balcão. 
Onde vais? 
Eu estou morto, Diogo. Não interessa onde eu estou. 
Não dei por ele partir. Terá deslizado porta fora, com a suavidade que a perna amputada já não permitia, despido dos pesos que a puta da vida lhe atirara, e que ele carregou nas costas com a tenacidade dos campeões. Perdeu a perna e a mãe para o impiedoso monstro negro, que decidiu brincar com a presa mais um bocado. A vida não tortura por malícia, fá-lo por indiferença. Despreza-nos como vermes; ninguém estará lá para a raça humana senão ela própria. Se para a vida somos células imprestáveis, resta-nos sermos, uns para os outros, memórias comuns, felicidades partilhadas.
Existem provas testemunhais de casos de força sobre-humana em situações desesperadas. Há casos de pessoas que, movidas por uma inconcebível adrenalina, conseguiram levantar carros que haviam caído em cima de outras.
  Talvez o Duque nunca tenha sido mais forte do que nós. Talvez só tenha tido mais carros para levantar. Talvez só tenha criado mais anticorpos contra a descrença, contra a desilusão. 
Se o Duque foi capaz de bloquear os socos da vida com uma pujança homérica até ao golpe final, talvez 
o que com ele podemos aprender é que todos nós somos deuses acorrentados, prontos para combater o desprezo que o universo nos reserva, agarrando-nos enraivecidamente a esta coisa estranha e milagrosa chamada vida. 
Vou pedir mais um shot. Brindemos juntos ao Duque.      
Diogo Hoffbauer