Aurora Dourada

É com prazer que assisto ao ressurgimento de um fenómeno anual de rara beleza: a proliferação, ao primeiro sinal do sol de Verão, de um sem-número de mulheres apetecíveis pelas ruas. Permitam-me que abra um parágrafo anexo, para que possa fundamentar o adjectivo usado: a língua portuguesa é rica em sinónimos inúteis, mas parca em vocábulos essenciais. A nível sexual, é tão púdica quanto o seu povo. O acto de acasalar tem no grotescamente mecânico "fazer sexo" a sua expressão mais aceite, se não quisermos recorrer ao ultraromântico "fazer amor". Ainda há que "vá para a cama" com alguém mesmo que essa cama seja um quarto-de-banho público, e quem "durma" com alguém mesmo que no final invente uma desculpa para sair e acabe por dormir sozinho. A língua portuguesa não nos permite referirmo-nos ao sexo com a dignidade de não recorrer a palavrões. Neste contexto, surge a dificuldade de definir estas mulheres que surgem com a calidez. Não são necessariamente bonitas, no sentido casto do termo. São aquilo a que os anglo-saxónicos chamam apropriadamente de hot. É sexual, é primitivo, os nossos instintos são despertados a cada esquina, não nos apaixonamos por nenhuma, apenas as desejamos a todas.
Não ignoro alguns factores óbvios por trás deste fenómeno. O vestuário é crucial: os calções e as saias são curtos e reveladores e os decotes são abundantes, colocando os objectos do nosso desejo no limiar entre a revelação e a fantasia (o grau adequado de liberdade). E até os óculos de sol, indispensáveis na fase do ano que agora principia, cobrem muitas vezes falhas faciais que afastariam um segundo olhar. 
O Verão, todavia, dá mais a uma mulher do que a oportunidade de exibir as curvas. Este fenómeno que descrevo trata-se do surgimento de uma aura à volta de todas as beldades, uma sinergia de peles mais douradas, perfumes mais doces e, como consequência, uma confiança altiva que consegue apelar aos instintos de forma ainda mais aguda que os aspectos referidos anteriormente. É no Verão que o forte espírito da mulher se funde com o corpo e passa a emanar por cada poro a delicada e feroz essência feminina. Desaparecem as olheiras, o corrimento nasal, a cinzentude dérmica, e tudo dá lugar a uma formosa plenitude. 
O calor ajuda as senhoras a disseminarem uma sexualidade interior que hiberna no Verão, num processo que imagino semelhante ao da evaporação. Um bloco sólido de confiança e sensualidade que, aos primeiros raios de sol, e até à queda das primeiras folhas caducas, se vaporiza e invade a cidade de uma palpável luxúria. Como se o sol não bastasse para pôr todos os homens mais joviais, as senhoras ainda nos brindam com a sua silhueta, com o seu andar, com o seu sorriso estival. Não é uma exibição gratuita para olhares concupiscentes; apreciemos antes estas graciosas figuras com o espírito artístico com que elas merecem ser contempladas. Fica aqui um desmedido obrigado às mulheres por conservarem e aprimorarem a sua aparência, mesmo sabendo que não o fazem por nós. 
Diogo Hoffbauer

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